Dona Dalva - parte II

No liga pra ela. Dona Dalva, eu at queria tomar banho, mas que nossas malas esto na ferroviria.

Ihhh, com essa tempestade de neve vocs no vo conseguir voltar l hoje.

Mas temos que voltar!

 

Foi a que a Dona Dalva chamou o amigo dela, o Marcelo. Ele era de So Lus, casado com um holands. Um sotaque nordestino sem igual! O Marcelo foi buscar as nossas malas de carro e nos emprestou o telefone dele para ligarmos para o Sander e avisar aonde estvamos.

 

Sander?

Oi."

"Ento, encontramos alguns brasileiros e vamos esperar por voc na casa deles e no na ferroviria, por causa da tempestade de neve.

Tudo bem, me passa o endereo.

Qual o endereo daqui Marcelo?

Me d o telefone, eu falo com seu amigo.

Ta bom.

 

Vingskar aufnih, jlqwhdouiqwgd kjwqgdkhqgw hsgjhsq, wjgdkhw!!!

 

(...)

 

Hushuihgiu?

 

(...)

 

Huhsuhgyudg, jgdhkwekgk hgww jghduw jhghwg.

 

Yghbiw!

 

Ele vem s sete.

 

Qu?

 

Olha, eu aprendi muita coisa nessa viagem. Aprendi que a Letnia populada, aprendi sobre mouros, bascos, aprendi que alemo recolhedor de neve fala ingls, aprendi que francs era um povo bem extico e aprendi que por mais sotaque nordestino que voc tenha, voc pode aprender holands! Nunca subestime os letes, os bascos, a polcia secreta de Madri, o Sr. Johan, a Dona Dalva e o Marcelo... Eles so surpreendentes!



Escrito por Srta. Sbaile s 08h37
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Dona Dalva - parte I

 

 Como vamos agentar at as sete da noite, Malu?

Puta, vai ser foda!

Me abraa, Malu!

Eu no!

Como no?

T carente, Sbaile?

T com frio, sua anta!

, eu tambm!

Ser que tempestade de neve no inverno tipo chuva no vero? Passa rpido?

Acho que sim!

 

As cinco pessoas que estavam na rua desapareceram em menos de um minuto.

 

Malu...

Qu?

Ser que vamos comear a perder nossas extremidades? Tipo a ponta do nariz?

Tipo o bico do peito?

Cacete Malu, que aflio, sua desgraada!

 

 Vocs so brasileiras?

 

L estava ela. Iluminada. Linda. Era um anjo! Era a Dona Dalva!

 

A Dona Dalva era brasileira. Carioca. Coroa. Falava pelos cotovelos. A Dona Dalva era um poo de piedade e a Dona Dalva trabalhava para um casal rico de Den Haag que estava passando frias em Madri. E mais: a Dona Dalva tinha a chave da casa deles. Quer mais? Quer mais? Ento toma: a Dona Dalva nos levou pra l, e, sim, ns amamos a Dona Dalva!

 

No momento em que a Dona Dalva apareceu, eu ca de joelhos na neve, uma luz divina abriu os cus holandeses e o instrumental de Aleluia soou. Os cavaleiros do apocalipse se afastaram lentamente e Deus falou no meu ouvido: Daaaalvaaaa... Daaalllvvvaaa...

 

No agentamos mais comer, no, Dona Dalva. No cabe.

S mais um pedacinho de bolo, come! Come!

que no cabe mesmo.

Nem um caf?

 

Minha gastrite, droga!

 

Tudo bem, um caf.

Sua gastrite, Sbaile!

Vou entupi-la de caf! Foda-se.

Sbaile do cu!

 

Vocs querem tomar um banho?

 

Ei, Malu! Ser que ela quer abusar sexualmente da gente?

Cala boca, Sbaile, a mulher uma santa!

 

Muito obrigada, Dona Dalva, eu tomei banho ao sair de Paris, j a nossa companheira Malu...

Sbaile! Pode parar! Quem toma banho uma vez por semana aqui voc!

Eu? Sua loroteira de uma figa!

Ah, eu n?

Sem problemas Malu, entendo muito bem sua identificao total com os franceses. Voc j tem cara de francesa. Esse seu narizinho empinado, seu cabelo curto e liso, sua vocao para no tomar banhos...

No acredito que voc est falando isso! Olha s quem fala! A mulher que passou trs dias sem tomar banho na Esccia!

No tenho culpa se o banheiro era misto e eu sou tmida. Alm do mais, quando tentei tomar banho, ouvi duas vozes femininas vindo da mesma cabine!



Escrito por Srta. Sbaile s 08h28
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Grande Pequena Den Haag - parte III

Cacete! Ainda no meio dia!

No possvel, a gente j enrolou muito!

Eu sei! Acho que o tempo no passa em Den Haag.

Cara, esse lugar muito esquisito.

esquisitssimo!

Mais um caf?

, mais um! Acende outro cigarro.

No posso.

E por que no?

Acho que estou com gastrite por conta dos cigarros e cafs que tm sido minha alimentao bsica h quase um ms.

Tem o Burger King tambm.

, tem essa alm de tudo, por isso de agora em diante s como em McDonalds

Acho que no tem McDonalds em Den Haag.

Talvez Den Haag seja natureba. O centro natureba da Europa!

Talvez seja minscula, s isso. Mas... Sbaile, voc no pode fumar tanto assim, nem se entupir de caf o dia todo.

 

Odeio quando as pessoas falam isso, porque eu sei que verdade.

 

Ah, pode parar. Voc tambm fuma!

, mas no tanto quanto voc.

Humpt!

 

Enrolamos, dessa vez mais do que a ltima.

 

Malu...

Fala.

Sabe essa mesa do nosso lado?

Sei.

Cinco clientes j passaram por ela desde que chegamos.

Eu sei, ia comentar isso com voc agora.

Vamos?

, vamos.

Podemos enrolar fazendo compras, tipo: sabe essa saia de seda? Comprei em Den Haag, querida!

Ui, ui, ui! Olha o meu casaco de couro, direto de Den Haag, meu bem!

Que bosta ser pobre!

Uma merda!

A pior parte de ser pobre na Europa ter que carregar aquela mala pesada do cacete!

Nossa! Sem dvidas! Eu deixei duas camisetas na Frana, uma toalha na Irlanda e um cachecol na Esccia.

Eu deixei um secador na Irlanda, depois comprei um na Frana. A deixei uma toalha na Espanha, mas depois roubei uma no albergue da Esccia, quase roubei um secador deles tambm, mas achei sacanagem.

Por qu? Eu roubei o adaptador de tomada deles!

Srio? P, a gente ta roubando muito, por isso o peso da mala no alivia!

, droga! Ei, sabe o Ronaldo? O jogador?

Sei.

Ele nunca faz as malas, ele chega de viagem e compra tudo no lugar.

Mentira!

Srio! Um filho da puta, n?

Total filho da puta!

Um dia ele vai morrer.

, maldito!

 

Neve, neve, neve... Tempestade de Neve!

 

 



Escrito por Srta. Sbaile s 07h34
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Grande Pequena Den Haag - parte II

Den Haag estava branca, a porta da estao dava para uma estrada larga toda cheia de neve.

 

Ningum nas ruas.

 

E agora, pra onde vamos?

Que tal se a gente perguntar pra algum?

Pra aquele homem de preto?

No, melhor perguntar pra aquela mulher ali de roxo.

No, no! Vamos perguntar para aquela multido que vem vindo!

Olha, olha! Que gato! Pergunta pra ele!

Ah, no achei gato! Muito loiro, prefiro os morenos!

Podemos perguntar pra aquele padre ali.

No gosto de padres.

Ta bom, chega Malu! No tem ningum aqui, meu! Como pode? Ser que Den Haag foi devastada ontem?

Sbaile, olha pra onde voc trouxe a gente!

Eu? Voc que disse Uhuuu! Vamos pra Den Haag! Do caralho! Muito legal!!!

Hahahaha! Meu, preciso mandar uma carta pro Brasil.

Eu j desisti de mandar cartas. Fiquei com preguia.

Novidade.

Humpt!

 

Fomos batendo papo at encontrarmos os primeiros sinais de civilizao. O centro de Den Haag parecia com o centro de Limeira. Digo, eu nunca fui a Limeira, mas imagino que seja algo como Den Haag. Ainda eram nove e meia da manh, fazia um frio glacial. Comeamos a desconfiar que Den Haag era basicamente aquilo, uma cidade de interior aonde o frio cortava at os ossos.

 

Passamos de loja em loja, sem comprar nada, claro. Eu fazia umas bolas de neve e tacava na Malu s vezes. No comeo ela achou engraado, mas no rolou uma reciprocidade e ela no atirava nada em mim. Uma hora ela fez uma cara feia e eu achei melhor parar, antes que ela atirasse algo mais pesado que neve em troca.

 

Andamos muito, e andar no frio desgasta mais que andar no calor. Voc sente seus dedos gelados e depois passa a no senti-los mais, o nariz, os braos, o p, tudo gela, e voc comea a sentir necessidade de fazer uma pausa em algum lugar aonde haja aquecimento.

T com fome, Malu?

Muita.

Aonde vamos comer?

 Eu no sei, vamos achar qualquer lugar quente a e comer alguma coisa.

Alguma coisa barata!

Definitivamente!

 

Comemos.

 

Vamos?

No, no podemos ir! Ainda no nem meio dia, temos que enrolar.

Vou pedir um caf ento.

Isso!

Fuma um cigarro, pede um ch.

Perfeito.

 

Enrolamos.

 



Escrito por Srta. Sbaile s 07h31
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Grande Pequena Den Haag - parte I

Den Haag Estao de trem.



, minha carssima Sbaile, Den Haag, Den Haag.


No ironize desse jeito, no legal. Voc est em Den Haag. Quantas pessoas voc conhece que vieram a Den Haag? Den Haag mega extico, Malu!



Risos.



Olha aonde viemos parar.


Acho que deveramos deixar as malas aqui na rodoviria mesmo, trancadas, a a gente d umas voltas pela cidade.


Sim.


No tem ningum na estao Sbaile, s a gente...


O que voc quer dizer com isso?



Olhada de lado.



, eu sei Malu, eu sei.


Como funciona esse guarda-volumes?


Sei l!


Ixi Sbaile! Sbaile!


Que foi?


Ta em holands!


Ah, no possvel!


Vem ver aqui! As instrues esto em holands.


Afff Maria, esto mesmo! Deve ser porque no vem turista pra c, deveramos ficar felizes que tem um guarda-volumes por aqui.


E agora?


Aperta esse boto aqui.


Por qu?


Porque significa trancar.


?


! Aprendi quando fui ao Suriname.


Ah Sbaile, no fode!



Apareceram dois caras mal encarados naquela estao vazia.



Vai l Sbaile, pede ajuda pra eles!


Ta doida? Eles vo assaltar a gente!


Ah , eles assaltam aqui por causa de todos esses turistas que lotam a estao de Den Haag!


Vai ver mesmo!


Ahhh Sbaile!


Eu no vou falar com aqueles caras!


Ento eu vou!


Se eles te seqestrarem eu no vou te socorrer! V por sua conta e risco!



Os caras vieram e ajudaram a gente, a Malu estava certa, eles no eram perigisos. Talvez fossem, mas ns estvamos com olheiras, cabelo pra cima, cara de meninas de rua mesmo! A Malu ainda mais estilosa, tinha comprado um casaco xadrez todo chique por cinco libras na Esccia. Eu usava uniforme, era a mesma jaqueta jeans cinza sempre. Mas mesmo assim, no parecamos pessoas do tipo que so assaltadas. Ainda andvamos com um saco plstico branco cheio de bolachas e chocolates e o saco tava meio que rasgando. Um cachorro! Faltava um cachorro de rua para que pudssemos esmolar. Acho que por isso, mesmo que os caras fossem perigosos, ns no teramos problemas de qualquer maneira.



Samos.






Escrito por Srta. Sbaile s 07h29
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Dilema Revellnico - parte IV

Voc no precisava ter acordado assim cedo, Jean-Jacques.

Eu sei, mas levo vocs at a estao.

De carro?

No, a bateria do meu carro pifou h aproximadamente seis meses.

E voc ainda no trocou?

Esqueo. Sabe como , n? Moro em Paris, so quinze linhas de metr.

 

Ai, que inveja!

 

Vai levar a gente como, ento?

Acompanho de metr, posso carregar as malas pelo menos.

 

, isso j seria uma grande coisa!

 

Estvamos em cima da hora quando descemos do metr, e estava muito, muito, muito frio. Alguns quatro graus negativos, penso eu. Samos correndo do metr.

 

Malu!

Que ?

Minhas luvas!

Que luvas?

Minhas luvas de couro?

Corre Sbaile, corre!!!

Mas as minhas luvas!

O que tem as suas luvas?

Mais devagar Malu, mais devagar que eu sou fumante!

Puta que o pariu, Sbaile! A gente vai perder o trem!

Calma! Qual a plataforma?

No sei, os bilhetes esto com voc!

Esto?

Puta merda! Esto!

Ah , esto! Como plataforma em francs?

Sei l, deve ter em ingls a tambm!

Acho que no.

Sbaile, ns vamos perder esse trem!

Ai meu Deus! Ai, ai, ai! Aqui! Aqui tem um dezessete!

 

Corram meninas, corram! Corram porque essa uma chance nica de sair da Frana em vspera de ano novo!

 

Entramos no trem.

 

Malu...

Fala!

Deixei minhas luvas no metr.

Ai Sbaile. Quantas luvas voc j perdeu?

Duas at agora, mas essa que perdi era minha favorita!

E quantos pares ainda restam?

Um s.

Sbaile, Sbaile...



Escrito por Srta. Sbaile s 13h39
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Dilema Revellnico - parte III

Malu, voc passaria o ano novo em Den Haag?


Onde fica isso?


Na Holanda.


E o que tem l?


No sei. Nada, eu acho, alm de alguns holandeses.


Mas que tipo de cidade essa?


No sei, nunca ouvi falar.


E por que quer ir pra l?


Porque o Sander disse que podemos ficar na casa dele, e ele vai alugar um bar pro ano novo.


E quem o Sander?


No sei.


Como assim, no sabe?


Ah, sei que ele tem uma produtora, ele gosta de Dropkick Murphys e ele namora uma alem, eu acho. Sei que ele foi pro Marrocos e conheci ele num frum de mochileiros. Depois do ano novo a gente pega um trem pra Amsterd, vai estar menos lotado.


Tudo bem.



Ferroviria.



Duas reservas para Den Haag, para amanh tarde.


S tenho para amanh de manh.


E que horas?


Cinco da manh?


Qu???


E s tenho mais cinco.


Tudo bem, pode ser.


Cacete Sbaile, cinco da matina!


Pois , trs foda!


Mega foda!


Olha, se a gente no sabe como Den Haag, certamente vamos descobrir, porque chegaremos s nove e ficaremos at noite esperando pelo Sander, vamos ter bastante tempo pra desvendar os mistrios de Den Haag.


Ooh la la! No vejo a hora!



Em Paris j nevava, mas no muito.


Voltamos para a casa do nosso querido Jean-Jacques e avisamos que partiramos s quatro da matina, o que significava que acordaramos s trs, e, mais que isso, que o risco de perdermos a hora, o trem e o ano novo na gloriosa Den Haag era altssimo. Agradecemos o Jean-Jacques pela ateno, s no pela pizza, j que eu paguei por ela. Achei gentil pagar, mas no fiquei feliz com essa minha gentileza. Pelo menos agradecemos pelo vinho.



No faramos o Jean-Jacques levantar s trs e meia da manh, ento nos despedimos dele antes de irmos dormir.



Sbaile! Sbaile!


No, no...


Sbaile acorda!


J perdemos o trem?


No, mas estamos atrasadas!



Abri os olhos e l estava a Malu de pijama. Olhei em volta e percebi que estava no apartamento do Jean-Jacques, e que estava quentinho, e que eu no queria sair dali. Afastei a cortina com os dedos e l estava o centro de Paris, mais cinza que meu pulmo.



Vamos Sbaile!


Qu?


Vamos! Temos que pegar o trem!


Bom dia senhoritas!



L estava ele, acordado e de banho tomado, com um hobby de seda, aqueles cabelos grisalhos e culos quadradinhos de armao fina, pantufas e com uma xcara na mo. Jean-Jacques, ah, Jean-Jacques!



Escrito por Srta. Sbaile s 13h38
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Dilema Revellnico - parte II

O que vamos fazer agora, Sbaile? Passar o ano novo com o Jean-Jacques?

O Jean-Jacques judeu, ele no comemora ano novo.

Srio?

No. Mas seria meio folga da nossa parte, n? Sei l, o cara tem famlia, no tem a mesma idade que a gente. Deve ser meio aquela coisa de francs, meia noite eles brindam e falam ooh la a!.

assim?

Como eu vou saber, Malu?

O que a gente faz ento?

Calma, pensa num lugar aonde o ano novo pode ser legal, alm de Amsterd.

Bruges, na Blgica?

, uma opo.

Podemos ir direto a Berlim.

E depois voltar a Amsterd?

No, depois levaramos muito tempo at Munique...

Pensa, Malu, pensa...

T pensando! Pensa voc tambm!

 

Lembrei do Sander. Eu conheci o Sander em um frum sobre viagens, ele holands, conversamos algumas duas ou trs vezes (super brother, hein?), eu nem sabia se ele era de Amsterd, mas eu sabia que ele era holands e isso j ajudava um pouco. Eu tinha o e-mail dele e raramente ele entrava no MSN. Usei o computador do Jean-Jacques para enviar um e-mail ao Sander e, assim, como se fosse um sinal divino, o Sander estava online no MSN.

 

Sander! Eu t em Paris!

Que bom!

E estava indo passar o ano novo em Amsterd, mas no tem mais albergues disponveis l.

Aonde vai passar ento?

Voc no de Amsterd?

No, eu sou de Den Haag.

Ah, vou passar em Den Haag, ento.

Risos.

Voc vai passar aonde?

Bom, eu vou passar em Den Haag.

Faz sentido.

Olha, se voc quiser, pode vir, embora eu ache um pouco estranho que algum venha assim, do nada. Mas isso no significa que voc no seja bem-vinda aqui.

 

Ual. Que incentivo!

 

Estou com uma amiga tambm.

Eu tenho um quarto extra. Isso no seria problema. Tenho um sof grande tambm e ns alugamos um bar aqui. Eu e meus amigos vamos comemorar o ano novo nesse bar.

E quando podemos chegar a?

Olha, vocs podem vir amanh, mas eu trabalho, ento peguem o trem das quatro da tarde, porque a vocs chegam aqui umas sete da noite e eu busco vocs de carro na rodoviria.

T bom!

Me liga qualquer coisa!

Sim, claro!

 

 



Escrito por Srta. Sbaile s 13h36
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Dilema Reveillnico

Paris, casa do Jean-Jacques.

 

O Jean-Jacques meu amigo da poca que o ICQ era popular. Eu o adicionei, e sei l porque adicionei. Acho que porque sempre tive uma quedinha pelo idioma. Eu estava no trabalho e no tinha nada pra fazer, procurei algum de Paris, achei o Jean-Jacques, ele no se importou de ser achado e ns conversvamos uma ou duas vezes por semana. Passaram-se quatro anos de conversa e eu finalmente apareci em Paris e liguei pra ele:

 

Al.

Jean-Jacques?

Oui

Aqui a Sbaile, do Brasil.

Do Brasil?

, eu sou de l, mas estou aqui agora.

Aqui aonde?

Aqui em Paris!

Mentira!

No, verdade, verdadona!

Nossa! Mas que coisa...

 

, era de se esperar que ele, um francs de quarenta e oito anos se espantasse com essa minha atitude, mas p, eu conversava com o velho e bom francs h quatro anos, ele j tinha agentado crises existenciais online minhas e eu j agentei as dele tambm. Claro que ele era bem mais sucinto, ele francs afinal, e todos ns sabemos quo peculiares so esses franceses!

 

Quer me encontrar em algum lugar hoje noite?

Claro! Estou com uma amiga e, na verdade, ns estvamos pensando em ficar na sua casa.

Na minha casa?

Voc mora com a sua me?

No, claro que no! Bom, quantas pessoas so mesmo?

Seis, seis pessoas. Duas brasileiras, um nigeriano, um salvadorenho e duas bascas.

Bascas?

So duas pessoas, Jean-Jacques. S eu e a Malu.

Tudo bem, te mando o endereo do bar por e-mail e vocs me encontram l s sete, pode ser?

Claro! Au revoir.

O qu?

Tchau, Jean-Jacques, tchau!

Ah, tchau!

 

Encontrei o Jean-Jacques. Ele no era muito diferente do que eu imaginava que ele fosse, ele era assim... O Jean-Jacques. Tomamos umas cervejas e fomos pegar as malas pra ir at a casa dele. Chegamos e compramos pizza, ele tinha um vinho Bourdeaux que era qualquer coisa!

Ficamos trs dias com o Jean-Jacques, mas j estvamos h sete em Paris, era 29/12/2005. Aonde iramos passar o ano novo?

Pense, se voc estivesse em Paris, pronto para passar o ano novo por algum lugar ali por perto, pra onde voc iria?

 

Queremos reservas para o reveillon em Amsterd, algum albergue, s por trs dias.

No temos mais reservas em albergues, t tudo lotado.

Ah, no tm?

No, no temos.

Nem hotis?

Sim, temos hotis.

Ah, timo! O mais barato.

90 euros a diria.

Obrigada, tchau!

 

Noventa filhos da puta euros? No ia dar! No ia dar mesmo!

 

 



Escrito por Srta. Sbaile s 13h32
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Presepadas Germnico-Brasileiras

E-mail enviado de um Uno & Due de Berlim, enviado a parentes e amigos brasileiros:

"Dear Folks,

C estou, em Berlim. Nunca tive a mnima vontade de vir para a Alemanha, por mim, ficaria mais tempo no Reino Unido, aonde possvel entender o que as pessoas falam e a cerveja , definitivamente, a melhor. Alm da musica folk e das milhares de lojas de vinil da Inglaterra. Mas como fiz um acordo com a minha companheira, aqui cheguei... E no foi uma chegada qualquer, foi uma chegada triunfal, j que, na vinda para Berlim, deixamos as malas no armrio da ferroviria e a Malu perdeu a filha da puta da chave. Na verdade, ela pensava que a chave estava comigo, e eu, obviamente, imaginei que a chave estivesse com ela. Resumo: Perdemos o trem. Mas esse no era o problema, j que no tnhamos comprado o bilhete (porque temos um passe especial). O problema era que o outro trem demoraria at a meia noite para sair... E eram 5 da tarde.

Mas era o nico jeito, no?

Pegamos o outro trem, mas tnhamos que fazer uma conexo s duas da manha... S que dormimos e acordamos com o fiscal dando uma puta bronca na gente em alemo... Puta merda, que susto! Estvamos simplesmente indo para a Repblica Tcheca. S que nossa reserva era para Hannover... Cara... Estvamos indo para muito longe do nosso roteiro!!!
Tivemos que descer na primeira parada, que era Dsseldorf. Descemos e esperamos at s 4 da matina para pegar o trem para Berlim.

Demos uma andada pela noite de Dssel e ento voltamos para a rodoviaria. Pegamos o trem e chegamos em Berlim. Que-bra-das!

Chegamos s nove da matina, mas o chek-in s s 3 da tarde. Resumo: No podemos dormir at s 3 da tarde... Ai, ai, ai!
Okay, s que nada disso problema quando se ... Eu... E l fui com meu esprito aventureiro ver o que que o germnico tem. Com meu cabelo mega oleoso (icat!) e minhas super olheiras de uma noite sem dormir, fui dar umas bandas em busca do meu marido rico alemo. Uhuuu!

Andei, andei, andei... E, claro, me perdi. Um frio do cacete e uns restos de neve que me fizeram.... Caaaair e esborrachar a bunda no cho. a 87893267891 vez em 4 semanas e meia que fao isso!

Tudo bem, continuei a tentar achar o caminho do albergue. Quando, eis que se no quando, aparece um alemo me pedindo um isqueiro. Ele falou em alemo, mas eu achei que ele quisesse o isqueiro, ento abri a bolsa pra pegar. O coitado sorriu gentilmente quandooooo.... Tudo comeou a cair da minha bolsa porque o zper emperrou... Tudooo! CD player, moedas mil, papis inteis, chiclete e uma caixa inteira de nada mais, nada menos que O.B (!!!). Imagina a cara do alemo... Imaginou??? Agora imagina a minha!

Eram uns sete ou oito OBs voando numa dana quase que comovente pelas ruas de Berlim... Foi lindo! Quase chorei!!! No sabia aonde enfiar a cara, muito menos os OBs... Affff! O alemo me ajudou a recolher tudo... Ai, ai, ai...
Meu dedo tava duro por causa do frio... serio!!! Ai no conseguia pegar as coisas direito. Nunca tinha sentido o dedo duro desse jeito... Hahahhaha! Perdi uma luva na Espanha, outra na Franca e a ultima ficou em Den Haag... Agora t sem luvas! E com o dedo duro... Durssimo, por sinal! Mas vou comprar uma...

Ah, sem contar que, no caminho, minha supermala rasgou justo na parte de baixo... E uma meia cor-de-rosa de l ficou pendurada para fora. Rodei Amsterd com aquela meia rosa perdurada na mala... At que uma hora, ela, claro, caiu. Um gentil idoso holands fez o favor de abanar aquela coisa rosa perguntando "Lady, is it yours?". Ai cus!!!

Ah, acho que vou alugar uma bicicleta aqui em Berlim amanh, porque meu, sem condies de andar aqui, muito menos de pedir informao para os alemes que, em sua maioria, não falam ingls. Eles tentam, mas lgico que eu no entendo, porque no Ingls... Ento eles gritam, porque na cabea deles, se eu no entendo porque no estou escutando, no? E obvio que no porque no falo picas de alemo... Aiiiii!!!!! Vou falar, viu...
Berlim muito grande, e plana... E meu, as estaes de metr se chamam öäµßµöäüßßß ou, as vezes, kjrkeölµßgdfutgf... Cara, impossvel! No d pra decorar os nomes!!! No d nem pra pronunciar essas coisas!!!

Bom, fora o meu dedo duro, a bunda roxa e a dificuldade de comunicao... T tudo bem. Mas ai... Acho que t faltando um OB na caixinha... Aiiiiiii!!!!!

Bom, t com saudades. Depois dessa estranha Alemanha (cara, alemo muito estranho), vem Itlia e depois CASA!!! Ahhhh... Droga!

Beijocaaaaas!!!! Tomo uma escura por vocs hoje noite...rs!

Sbaile"


Escrito por Srta. Sbaile s 08h26
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Hallo aus Berlin - parte II

Dia seguinte.

Vamos ao museu judaico, Malu?

Vou a um campo de concentrao. Quer ir?

Argh! No, obrigada.

Cad o nipnico?

Ele saiu cedo, foi para Polnia.

Fodeu! Fodeu... Porque eu disse que ia com o Aaron ao museu judaico, mas acho que ele est me xavecando! E eu no quero ser xavecada!

Mas eu quero ir ao campo de concentrao!

Cacete, Malu! Abre uma exceo, sua maldita nazi!

P Sbaile, eu j tinha programado ir ao campo! Alm disso, ele americano, no vai se importar muito em levar um fora seu, digo, no igual a brasileiro, que fica todo putinho e te deixa sozinha no restaurante com a conta pra pagar quando voc diz um no.

, faz sentido.


Metr.

T com saudades do meu namorado.

Onde ele est?

No Brasil.

E quanto tempo falta para voc voltar?

Um ms aproximadamente.

Ah, espera um pouco, pensa em outras coisas, curte o pas, a o tempo passa mais rpido.
, acho que sim.

Rua. Um frio do cacete!


Voc sabe aonde o museu?

Sei.

E longe?

No sei.

Como assim, no sabe?

No sei, mas acho que no.

Mas sabe aonde o museu?

Sei.

Mas sabe mesmo?

Sei.

E longe?

Olhada de lado.

T bom, parei.

Meu sotaque em ingls esquisito?

.

?

. !

Parece com o qu?

Com nada, por isso esquisito.

Com nada?

, no parece com espanhol, nem com italiano, nem com francs.

Nem com leto?

Claro que no. Por que pareceria com leto?

Sei l. No consigo falar world em ingls.

, no consegue.

Pois , no consigo. O museu est longe?

No respondo mais a essa questo.

Voc j no tinha respondido mesmo.

, verdade.

Museu.

2 euros, senhorita.

Sou estudante, pago 1 euro?

Definitivamente, voc judia!

Devo ser mesmo.

Voc vai pagar? Seu amigo deveria fazer a delicadeza de pagar a sua. yeah, super balconista alem!

Eu sou judeu tambm.

gay tambm ou s no aprendeu a ser cavalheiro?

Tudo bem, minha contribuio ao terceiro mundo.

Que timo Aaron, em troca eu te ensino alguma coisa sobre cinema fora de Hollywood e posso at te ensinar como dirigir carros mecnicos.

Fantstico! Com muito esforo, talvez eu possa te ensinar a falar world.

Filho da puta!

Samos do museu.

Quer tomar um caf?

Eu queria, mas continuava com medo de ser xavecada. que eu tenho fobia xavecos. Comeo a ficar vermelha, sem reao e s vezes eu at saio correndo. Mas naquele frio do caralho eu estava pensando at em entrar num petshop!

O assunto no caf era sobre ratos de academia, acho que foi porque o Aaron comentou que eu fumava demais, e a comeamos a falar dessa galera saudvel, que s come folha, toma vitamina e vive na academia. Tudo isso pra qu? Pra depois mostrar como eles so gostosos e saudveis? Ah, que porre! Gente saudvel um saco!

Pra mim tudo um bando de viadinho.

Por qu?

Porque eles ficam l na academia, suados, sem camisa. Pra qu? Mulher nem gosta disso! Gosta de homem charmoso, que fala um monte de lnguas, educado, inteligente. Mas geralmente no ligam para um monte de msculos. Os gays ligam.

, voc est certa. E sabe por qu?

Ai meu Deus, ele vai me cantar, ele vai me cantar... No! No! No!!!

Porque eu sou gay.

Ah.

MEU DEUS QUE FRIO! UMA CERVEJA!

Qu? Eu estava no meio de uma revelao de novela mexicana, aliviada no entanto, e me entra um alemo de aproximadamente dois metros de altura, 250 quilos, 70 anos de idade, gritando por uma cerveja do nosso lado. No era a hora dele aparecer. Ou era, porque eu realmente no sabia o que falar pro Aaron naquele momento.

EST FRIO, NO?

Meu Deus, ele no sabia falar a menos de 450 decibis!

, frio.

E EU TRABALHO DESDE S 5 DA MANH!

, parece ser bem frio s cinco da manh, hein?

FRRRRIO! MAS EU BEBO CERVEJA MESMO ASSIM!

, estvamos vendo.

DE ONDE SO VOCS?

Eu sou do Brasil e ele...

BRASIL? EU AMO O BRRRRASIL!

Ama? J esteve l?

NO, EU SOU UM RECOLHEDOR DE NEVE, OLHA A MINHA P.

Isso no significa necessariamente que ele no pudesse ir ao Brasil. Digo, muitos brasileiros vo Alemanha para fazer coisas como recolher a neve, mas acho que exatamente por esse ser um emprego que no d muito crdito pessoal a ningum, que ele me disse isso. engraado, porque poucos alemes falam ingls, principalmente os mais velhos, e aquele homem velho, com um colete verde da prefeitura, tirando neve, sim, ele falava ingls. Era um ingls pavoroso, mas atpico que um alemo comum venha puxar papo com voc do nada, e ele veio, ele fez isso. E ele era um recolhedor de neve, e ele falava ingls.

Eu nem mesmo pensei nisso na hora, mas senti, e por isso sorri pra ele.

O Aaron tinha um livrinho de memrias de viagem, tipo um dirio de bordo. A o alemo disse assim:

VOCS PRECISAM IR A UM BAR BRASILEIRO! VOU ESCREVER O ENDEREO AQUI! TEM PAPEL?

Escreve aqui, um caderno de memrias.

SABE? EU ENCONTREI O MARCELINHO PARABA NESSE BAR, ELE TOCA SAMBA L! ELE JOGA PELO MEU TIME.

Meu Deus! Ta bom, s pra recapitular: o Aaron acaba de revelar que gay, o alemo fala com a gente, mostra a p, indica um bar brasileiro e diz que conheceu o Marcelinho Paraba. Ele disse essas palavras Marcelinho Paraba. Mas que loucura tava virando aquele caf!

Ento ele pegou o caderno do Aaron e comeou:


BERLIN, 04/01/2006.

IM JOHAN.

PLEASE, GO TO BRAZIL CLUB. FREDERIK STREET, 862. BERLIN/GERMANY

Entra um outro alemo com o mesmo colete verde da prefeitura.

HEY CLAUS! IM WRRRRITING IN ENGLISH, MAN! HAAAA-HAAA-HAAA!

Mas me aparece cada figura! Eu sentia como se o Sr. Johan fosse uma criana, daquelas fofinhas, para as quais voc olha e sorri e dedica um pouco da sua ateno. Alm disso, Johan era o nome do meu bisav, aquele das bolas. E este meu bisav falava trs idiomas, era pedreiro, alcolatra, telhadista de igrejas. Na hora me lembrei dele.

AH, WAIT! MORE... MORE!

GO TO THIS CLUB AND HAVE VERY.....HMMM... VERY OH FUCKING ENGLISH MAN!

O Aaron no se agentou e comeou a conter o riso em uma atitude constrangedora. Tudo bem, ns todos estvamos achando o Sr. Johan uma pea rara, mas ele no se via daquele jeito, no era pra dar risada quando ele falava fucking English, porque ele estava em uma crise tremenda no difcil ato de deixar uma memria ao nosso querido Aaron. Como ingls no minha primeira lngua, entendi o raciocnio do Johan e:

Very fun?

YEAHHH! YOURE GOOD!!! HAVE VERY FUN! NOW I HAVE TO GO WORK. WECOME IN BERLIN!

Isso foi fofo!

, foi!

E a, vai pagar o caf mesmo sendo gay?

Oui, mademoiselle!

Samos.


Escrito por Srta. Sbaile s 14h28
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Hallo aus Berlin - parte I

Foi na Alemanha que eu conheci o Aaron, um americano de Kentucky. Eu estava conversando com a Malu no quarto do albergue, em Berlim e o Aaron perguntou se o carregador de baterias era meu, eu disse que sim, ele me pediu para que quando minhas pilhas acabassem de carregar, eu avisasse, eu disse que tudo bem.

Silncio.

Um japa entrou no quarto, abriu uma mala apoiada sobre uma das camas e tirou um laptop, ficou l, em seu estilo tipicamente nipnico, nerdeando no computador. Supercomputador.

"Japas desgraados!- pensei.

O Aaron disse alguma outra coisa, no lembro exatamente o qu, mas ele s falava comigo em espanhol, a eu cansei, porque meu espanhol meio bem, bem, bem tosco. Ento eu quis responder, mas no sabia como exatamente, e ento fiz a pergunta que no queria calar:

"Voc fala ingls?"

"Sim, claro. Eu sou americano."

"Kentucky ou Texas?- perguntou o japa.

"Mas que japa maldito! J no basta o desgraado exibir alta tecnologia por aqui, agora sabe reconhecer sotaques em ingls tambm? - pensei eu.

Eu no sabia o porqu, mas estava encanada com aquele japa!

"Kentucky. Canadense, huh?"

"De Ontrio."

Ah, agora sim, a soluo do mistrio! Era um canadense!

Os dois comearam a conversar, eu voltei a minha cadeira e comecei a me maquiar, porque eu queria sair noite.

"Por que perguntou se eu falava ingls? Espanhol no a sua primeira lngua?"

", s que como as escolas cubanas so muito ruins, alm de sermos um maldito pas socialista, eu me nego a falar meu prprio idioma. pensei, mas no falei.

" que sou brasileira..."

"Ah, fala Portugus ento! falou o pequeno nipo-canadense.

"Olha, meu caro canadense, eu no fui com a sua cara porque alm do seu ingls ser fantstico e do seu computador custar mais que o apartamento em que eu moro, voc ainda todo supercultizinho e eu no estou me agentando de inveja! pensei, mas no falei de novo.

", exatamente, Portugus."

O Aaron tinha um sotaque estranho, bem do sul dos Estados Unidos, a eu perguntei:

"Kentucky? perto do Texas, ao sul do oeste, no ?"

" o centro red neck dos Estados Unidos. disse o nipnico.

Opa, gostei desse nipnico!

"Bem, nem todos pertencemos aos esteretipos sulistas. Vocs vo sair? Digo, voc estava se maquiando, vai a algum lugar?"

Era uma cantada? Parecia uma...

"Estava pensando em sair, mas no sei ainda."

"Vocs querem sair e beber uma cerveja?"

"Sim, claro!" - disse o nipo.

Se aquilo fosse uma cantada, o japa teria cortado o clima do americano totalmente.

"Licena."

"Claro!"

"Eu estava em outro quarto, mas entrou um cara l e ele est dormindo na cama de cima, pelado. Pedi para trocar e vir ao quarto de vocs, parece menos esquisito."

Menos esquisito? Hum! Vaca!

"Mas pelado? Que doido! No, no fica l no! Fica nesse quarto que a gente dorme de roupa aqui. - eu disse.

"E de onde voc ? - perguntou o Aaron.

Quebec

"Quer descer e tomar uma cerveja com a gente?" - perguntei.

"No, parto essa noite para a Letnia, s tenho quatro horas para dormir antes de pegar o trem, mas obrigada."

"Letnia? A Letnia deve ser legal! disse o Aaron.

Letnia? Meu Deus! Letnia? Eu viajaria para a Letnia, mas nunca pensei algo como "Frias! Oba! Esse ano Letnia na cabea!" ou "Nossa, a cultura da Letnia uma coisa incrvel, fascinante, sem falar nas bandas de rock deste pas to... to... Ex-sovitico!". Ignorncia minha parte, eu no sei o que leva algum a ir Letnia, ento no me controlei e perguntei:

"E o que te leva Letnia?"

"Meu namorado, ele de l."

Eis um bom motivo para visitar a grande Letnia!

"Srio? Que legal! Meu professor de artes da Letnia! Um dos maiores artistas que j conheci!- comentou o Aaron.

No era possvel! Voc j conheceu algum da Letnia? J ouviu alguma notcia sobre a Letnia? J viu a Letnia na Copa do Mundo? Assistiu a algum filme filmado na Letnia? No que no fosse possvel que o professor do Aaron fosse realmente bom, mas p... Letnia? Eu parecia ser a nica pessoa naquele quarto a no saber nada sobre a Letnia! Mas tudo bem, eu j sabia o suficiente sobre os Mouros e os Bascos.

Cerveja.

Conversando com eles, eu descobri duas pessoas muito engraadas, embora eu no consiga mais me lembrar do nome do nipnico. Alis, a famlia dele era do Vietnam, e no do Japo. J o Aaron, ele estudava arquitetura e foi enviado pela faculdade para fazer uma pesquisa sobre arquitetura alem.

J era tarde e a moa de Quebec apareceu no bar.

Eu queria pedir pra voc que me acompanhasse at o ponto de nibus. Est tarde e tenho medo de ir sozinha. Voc poderia me fazer esse favor?

Claro! Volto aqui em um minuto. disse o meu querido japa.

Cerveja.

O que vai fazer amanh?

Amanh? No sei ainda, e voc?

Ah, eu estava pensando em ir ao museu judaico.

judeu?

Sou. Voc ?

Eu deveria dizer que era? Bom, eu tenho um sobrenome judaico, mas no sou necessariamente judia.

Eu tenho sobrenome judaico, mas no sou necessariamente judia.

Ah sim, entendo. Quer ir comigo?

Era outra investida? Que medo!

, vamos, pode ser. Vou chamar a Malu e o canadense.


Escrito por Srta. Sbaile s 14h17
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A peculiar Madri - parte II

No dormi, ainda eram seis da tarde. Eu e minha companheira de viagem, a Malu, resolvemos sair para ver o que que o Madrilenho tem e fomos em busca das cervejas. No sei se o mais adequado beber cerveja na Espanha, mas de cerveja que eu gosto. Talvez seja algo hereditrio.

Meu bisav cresceu na Alemanha, mas era Iugoslavo (o que significa que hoje, no sei dizer exatamente de onde ele era, j que a Iugoslvia no existe h algum tempo); lembro dele sentado em uma cadeira de balano, bebendo, quase o dia todo, a ele ficava bbado e dormia. E ele s bebia cerveja. Por isso, em casa, todo mundo bebe cerveja. No temos uma cultura latina, no bebemos vinho, e eu nem sei reconhecer um vinho bom ou um vinho ruim antes da dor de cabea. Esse bisav tinha um problema nas bolas, as bolas dele eram enormes e minha av queria que ele operasse de qualquer maneira, ele nunca quis deixar ningum mexer nas bolas dele. Morreu disso, das bolas, e no do fgado como imaginvamos que ele morreria, mas morreu bbado, em casa, e as bolas dele estavam to inchadas quanto intocadas, a galera no conseguia achar uma cala que se adequasse ao velho defunto. E, obviamente, os homens da minha famlia morrem de orgulho disso gente esquisita.

Ah, voltando cerveja.

Samos.

Bebemos.

Tomando o caminho de volta eu j no estava nos meus melhores estados mentais. Vi um Mustang fundido em uma parede; na verdade, s a frente de um Mustang. A Malu me perguntou como eu sabia que aquele carro era um Mustang. No soube responder, porque apesar de eu no saber o que um basco ou um iugoslavo, eu sabia o que era um Mustang. E era um Mustang azul calcinha legal. Era a frente de um bar e tinha uma plaquinha piscando escrito Karaok. P, karaok legal.

Vamos a?

Vamos!

Fumaa. No dava pra ver os rostos das pessoas direito, e no s porque eu j estava meio bbada, mas porque no dava mesmo. Era escuro e tinha muita fumaa. Um balco, uma bartender com mais cara de latino-americana fumante que eu, usava decote, peitudssima; meu pai acharia que ela gostosa, eu achei um pouco gorda. Maquiada. Banquinhos de oncinha, zebrinha e tigrinho. Reduto dos quarentes espanhis.

Um dia na vida voc aprende que por mais que voc ache que j tenha visto o brega, ainda existe a msica pop espanhola e l estava ela, no meio da fumaa, dos quarentes, dos banquinhos de oncinha, da bartender peituda e do Pepe. Sim, ele, o Pepe! O Pepe era espanhol, quarento, estava no bar e veio falar comigo. Pepe legal. O Pepe era um pouco gordo, camisa xadrez e cantava msica pop espanhola.
Pepe! idiota? Voc idiota, Pepe?

Mas o que foi agora, Juan?

P, Pepe! Voc sabe que tem que ficar de olho! Eles esto por toda a parte! No pode ficar bebendo a noite toda, tem que estar sbrio para vigiar!

Tudo bem Juan, voc vigia a porta e eu continuo aqui, sem beber.

Vou confiar em voc!

E o Juan foi vigiar a porta.

Cinco minutos depois, ele volta com o Jos.

No tem condies! Vocs dois me deixam doido! No posso fazer todo o servio sozinho e... E voc, quem ?

Eu? Ah, eu no sou daqui no, sou brasileira.

Brasileira? Eu sou Juan, de Sevilla. Da polcia secreta de Sevilla, mas agora estou aqui em Madri.

Ah, sim, sim, claro!

Conhece os mouros?

Calma! Pra tudo! Os bascos j eram complicados o bastante, e ele me vem com os mouros. Um cara, naquele bar, com um amigo chamado Pepe, no meio daquele terrvel pop espanhol, da polcia secreta, falando dos Mouros?

Malu, esse cara existe ou eu preciso ir vomitar?

No precisa, ele existe, mas se quiser uma desculpa pra ir ao banheiro...

Ottelo era mouro e ele era moreno, acho que os mouros so morenos, mas no negros. Agora no sei se existe mouro negro, porque existe judeu negro, mas no existe basco negro... No entanto, possvel que existam mouros judeus. Puta merda! Wikipediaaa!!!

Mouros?

Sim, os mouros! E os bascos...

Ah, os bascos! Eu sei quem so os bascos.- Oba!

Sabe? Hmmm... Eles explodiram Atocha, e vo explodir de novo! Por isso fui enviado com Pepe e com Jose, estamos vigiando...

Vigiando... Os mouros?

! E os bascos! Que vo explodir Madri!

Entendo, entendo... Olha, eu conheo um basco.

No me diga!

Sim, sim. O Manu Chao. E, pelo que sei, ele vai explodir a Atocha, um lder Basco, mas voc provavelmente j sabe disso.

claro que eu no ia entregar o paradeiro do Adrin, mesmo porque, sem o Adrin no tinha cafezinho de graa e nem Manu Chao no saguo do albergue, alm do mais, o paradeiro do Adrin era exatamente o mesmo que o meu, se o Pepe, o Jos ou o Juan me torturassem, eu ia ter que contar. J o paradeiro do Manu Chao, ele poderia encontrar na parte de cultura do jornal. Entretanto, me arrependi depois, porque sem Manu Chao no teria Manu Chao nem no saguo do albergue, nem em lugar algum. Ai meu Deus!

Juan permaneceu calado por aproximadamente dez segundos, fiquei com um pouco de medo sobre o que ele poderia fazer comigo, mas ele sorriu, abaixou a cabea e sorriu de novo. Finalmente, ele olhou bem pra mim e indagou:

Eu j saquei! Eu saquei tudo. Voc tambm foi enviada pra c, pra me dar essa grande pista!

Antes de eu realmente acreditar que era Mata Hari em uma misso secreta e entrar na onda do Juan, perguntei ao Pepe:

Ele j trabalhou para a polcia? Enlouqueceu na guerra ou alguma coisa do tipo?

Ele amigo de infncia, se mudou pra Madri h algum tempo e carteiro h uns dois anos, antes disso morava com os pais em Toledo

Ah sim, entendo...

Por algum motivo, fiquei feliz com a resposta de Pepe, porque na linha tnue entre a sanidade e a embriagues da minha cabea de bagre, eu esperava uma resposta como: Sim, somos parceiros, agora pare de beber e vamos vigiar, porque eles vo explodir Atocha!



Escrito por Srta. Sbaile s 06h19
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A peculiar Madri -parte I



A chegada a um outro pas sempre motivo de excitao, seja esta boa ou ruim, excitao nem sempre uma coisa boa, geralmente , porque tambm sinnimo de entusiasmo, no entanto, naquele dia, me dava um pouco de medo tambm; medo sim, porque eu havia programado uma viagem de dois meses e acabava de chegar a um lugar muito longe de casa: Madri, Espanha.

Eu finalmente podia acender um cigarro. O funcionrio da imigrao olhou para a minha cara de latino-americana fumante, me viu tirar o mao do bolso. Eu perguntei pra ele se precisava passar por alguma entrevista, ou algo do tipo, ele sorriu com aquela cara de latino-europeu fumante e disse: Voc est livre agora. Nada poderia me causar mais alvio.

Sa do aeroporto.

Cigarro.

Sentei com a mala em um banquinho, no estava to frio. Naquele momento eu s precisava fumar oito cigarros, encontrar o papel amassado com o endereo do albergue, pegar o metr e chagar l. Definitivamente aliviador se que essa palavra existe.

Aquela filha da puta daquela mochila estava muito pesada. Cacete! Era um peso desgraado e eu sentia meus ombros rasgando. Meu coraozinho latino-americano se encheu de alegria ao ver a porta do albergue.

Check in.

Brasileira, huh? disse o recepcionista.

Espanhol, huh? eu respondi.

Aonde eu posso comer alguma coisa?

Fala com o Adrin, ele cuida da cozinha.

Voc o Adrin?

Sou eu

Je.... a Paris... Ooh la la! Oui... No... escutei.

Cest Franaise? perguntou o Adrin menina francesa que, como muitos franceses, s falava Francs.

Eles depararam a falar em Francs. Caralho. Comida, porra!

Adrianzo, meu chapa..

Oh pardon!

No, je ne parle pas Franais... Cest Franais?

No, basco.

bvio, ele no podia ser Francs. O Adrin era careca, lembrava um pouco o Barthez, mas tinha olhos azuis e olheiras bem demarcadas. No tinha sobrancelhas ou barba. Uma mistura de Barthez com Collina talvez, mas mais novo que ambos, suponho eu, aquela mistura de bola de boliche com cabea de lmpada, porque ele era assim... Um tanto lustroso, magro no entanto; tambm bem narigudo e bem antiptico, um pouco grosseiro na verdade. No. Talvez nem grosseiro, nem antiptico, s esnobe neste caso, ele poderia ser Francs sim, mas enfim, era basco. E aonde os bascos nascem? Eles precisam nascer nos pases bascos para serem bascos? Ou basco tipo Judeu voc pode encontrar um em qualquer lugar e eles se reconhecem entre eles mesmo uns sendo morenos e outros loiros? Eu, na verdade, no sei bem o que um basco, s sei que eles existem, tipo os curdos. Mas o Manu Chao basco e eu sei disso, e ele no parece nem com o Barthez, nem com o Collina, nem com o Adrin, e ele nem espanhol, francs, ou seria simplesmente basco? Tipo, um "citzen of the world"? Esse lance dos Bascos complicado...

Basco? Ah, eu conheo um basco!

Srio? De onde?

Ah, de CDs. O Manu Chao. Ele basco, no ?

Sorriso.

Sim! Voc gosta dele?

Claro, adoro os bascos!

Que timo!... Hey, espera um minuto!

Putz, fome! Muita fome!

Opa! Clandestino, isso Manu Chao!

O Adrin vinha meio pulando, meio andando e at meio cantarolando e, impressionantemente, simpaticamente sorrindo.

V? Manu Chao!

Que timo! Manu Chao.

Yeah! Desbanquei a francesa na difcil saga pela comida no albergue.

Comi. Ufa!

Depois do papo sobre o Manu Chao, o Adrin virou brother, me deu at um caf a mais no dia seguinte, na hora do caf da manh. Legal!

Obviamente eu fiquei pensando sobre o que ser um basco, mas no podia perguntar isso a ele, ento peguei um mapa no albergue e tentei achar os pases bascos, mas eles no estavam l. Os pases bascos so vrios pases ou um pas s chamado Pases Bascos? Antes de entrar em crise existencial por me achar um ser ignorante e prepotente, fui ao wikipedia e l encontrei informaes sobre os bascos. Alvio.








Escrito por Srta. Sbaile s 06h19
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