GOD SAYS "NO"! - parte IV
Saímos. Bebemos. Voltamos.
Acho que o Sander nunca foi um estuprador, ele é simplesmente holandês. E levou uns dez minutos de conversa para eu conseguir arrancar uma risada ou outra dele, talvez porque eu não seja muito engraçada. De fato, sempre senti que as piadas da Malu eram melhores que as minhas. Eu sou ruim de piada mesmo! Então dez minutos não foi tanto tempo assim.
Existem alguns detalhes que me fazem gostar ou não de alguém, e no caso da Dona Dalva, foi amor a primeira vista. Mas com o Sander, ele sendo homem e tal e coisa... Eu reparei que quando chegamos em casa, ele colocou o DVD do The Cure, e o fez porque eu havia comentado que gostava de Cure. Ponto para o Sander!
Conversei bastante com ele e isso foi aliviando a minha tensão, comecei a perceber que ele era um cara comum e que nunca se aproximava a menos de um metro e meio de mim, o que me ajudou bastante!
“Bom, eu acho que vou dormir.”
“Ah sim, qualquer coisa, lembre-se que têm mais cobertores no armário lateral.”
“Ah, claro! Obrigada!”
“Antes de você ir dormir, me diz uma coisa...”
Ai, ai, aiiii!
“Sim?”
“O que você come?”
Ufaaaa!
“Eu não como carne, nem porco, nem frango. Nesse caso, acho que só como peixe. Mas tudo é muito caro por aqui, então o Burger King tem me ajudado bastante nas horas difíceis. Mas você não precisa se preocupar, amanhã eu saio e como qualquer coisa por aí.”
“Na verdade, não. Você comentou que está com gastrite, então vou chamar a moça que escreveu ‘God says No’ na parede para cozinhar pra você”
Que alegria! Ela está viva! Sim, ela está viva e ela vai cozinhar pra mim! Nem posso acreditar!
Naquele momento, eu gostaria de dizer alguma coisa como “Não precisa se incomodar”, mas não pude dizer nada além de:
“Que maravilha!”
Dormi.
Escrito por Srta. Sbaile às 16h57
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GOD SAYS "NO"! - parte III
“Ai Malu! É ele!”
“Com ou sem a serra elétrica?”
“Você abre a porta!”
“Tá bom.”
“Telefone pra vocês.”
“Como?”
“É, telefone pra vocês.”
“Olha, não pode ser para a gente, porque a gente não deu seu telefone pra ninguém.”
“Malu, você é retardada? Ele não pode saber que ninguém sabe o telefone dele!”
“Acho que é aquela senhora com a qual vocês estavam.”
“Eu atendo!”
“Nem pensar, Sbaile! Você vai falar que foi estuprada, está amarrada num quarto escuro e grávida do Sander”
“Não, não vou falar que estou grávida.”
“Eu falo.”
“Que eu estou grávida?”
“Ai Sbaile, eu devia ter te deixado bêbada na Irlanda com aquele cara sem dente!”
“Ei! Ele tinha dente! Só não tinha todos...”
Ela falou, enfim.
Falou e dormiu.
Claro que eu não ia conseguir dormir. Eu estava realmente encanada com o holandês. Eu sei lá, gente que não fala é esquisita. Gosto de gente que grita, tipo os taxistas da Móoca, sabe? Uma coisa mais “Pô Bartolomeu, cê viu que o filho do Adalberto nasceu?”, “O Rrrrobertinho? Tá figura aquele muleque!”... “Ô Adamastôôôr, cê já foi visitar?”... Ou algo do tipo. Talvez porque eu tenha convivido muito com esse povo da Móoca, quando passei a infância num ferro-velho na Rua Natal. Mas enfim, isso não vem ao caso...
A primeira ação que você deve tomar em uma batalha é conhecer o inimigo, e o Sander era um inimigo desconhecido, o que poderia ser letal numa tentativa de assassinato psicótica da parte dele! Então desci as escadas, lá estava ele, no computador. Me aproximei lentamente e fiz a pergunta que não queria calar:
“Você tem...”
“Como?”
“Ah, você tem... água?”
“Sim, claro. Posso pegar na cozinha pra você, ou você mesma pode ir lá e pegar.”
“Sem problemas, eu mesma vou.”
“Tem umas coisas na geladeira, caso você esteja com fome. Tem pão, salame, presunto, queijo e um panetone que sobrou do Natal.”
“Obrigada, estou sem fome e também... É que eu... Eu não como porco.”
“Alguma ideologia?”
“Ideologia judaica.”
“Ah, você é judia?”
“Depende, você é nazi?”
“Como?”
“É, sou um pouco judia.”
“Um pouco?”
“Ah, sei lá, não faz pergunta difícil.”
“Então você não come porco?”
“Não.”
“Bebe cerveja?”
“Depende, quanto é ‘muito’ pra você?”
Risos.
“Quer sair e beber alguma coisa?”
“É, soa melhor que água.”
“Ótimo.”
Escrito por Srta. Sbaile às 16h56
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GOD SAYS "NO"! - parte II
“Deus diz ‘não’? Para o quê?” – sim, a anta da Malu perguntou!
“AI MEU DEUS!” – pensei, mas não falei.
“Para você, vadia! Toma isso!” – acho que ele pensou, mas não falou também!
“Para mim e para minha ex-namorada, eu acho. Ela escreveu isso antes de me deixar.” – isso ele falou mesmo.
“Tem certeza que você não a enterrou no seu jardim por engano?”
“Como?”
“O quarto ta ótimo! Obrigada!”
“Bom, vou deixar vocês à vontade. Se precisarem de alguma coisa, eu vou estar no escritório.”
“Obrigada.”
Ele saiu.
“Malu, esse homem vai matar a gente!!!”
“Ah, vai?”
“Vaaaai!!! Precisamos fugir, será que se a gente pular dessa sacada, a gente morre?”
“A gente não vai morrer de qualquer jeito?”
“Não se tivermos um plano!”
“Você tem assistido muito ‘Esqueceram de mim’ na sessão da tarde, Sbaile!”
“Malu!!!”
“Pula logo dessa sacada!”
“Olha! Tem uma casinha de bonecas no jardim!”
“É aonde ele guarda os corpos no inverno. A neve mascara o cheiro dos cadáveres.”
“Claro que não, não cabe um corpo lá dentro, só se for um corpo de boneca!”
“Vai ver é uma casinha de boneca inflável.”
“Você tá me deixando doida, já!”
“Eu? Você que tá com mania de perseguição achando que o mundo quer estuprar você.”
“Não, o mundo não, só o Sander!”
“Bom, eu não sei quanto a você, mas eu vou morrer dormindo. Boa noite.”
Eu não tinha saída. Tinha que agir! Aquele “God says no” era um sinal!
Toc, toc, toc!
Era ele! Meu Deus, sim! Era ele!
Escrito por Srta. Sbaile às 23h59
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GOD SAYS "NO"!
Sete da noite, toca o telefone da Dona Dalva. É ele.
Sem cabelo. Cara típica de holandês – aliás, você só descobre como é uma cara típica holandesa indo pra lá, ou passando férias em Natal em alta temporada! Nada de muito extraordinário, são simplesmente holandeses.
Entramos no carro e a Dona Dalva gritou todos os tipos de recomendações possíveis, de “Escovem os dentes antes de dormir” até “Se ele for um estuprador, liguem!”. Minha mãe ficaria muito feliz em saber que alguém como a Dona Dalva fez o papel dela em algum momento da viagem.
Dez minutos no carro e descobrimos algo muito importante sobre o nosso anfitrião: Ele não falava.
“Pessoas que não falam me dão medo” – eu soltei.
“Sério? Você deveria gostar delas já que não pára de falar um minuto... Quem não fala, escuta.”
“Jura? Você não fala nem escuta às vezes, anta!”
“Desenvolvi essa técnica há alguns anos.”
“Será que ele é um estuprador?”
“É seu amigo.”
“Não, não é! Esse é o problema! Vamos dormir com um estranho!”
“Se ele fosse mais alto, até rolava, ele sendo baixinho, você que durma com ele.”
“Ai, besta! Eu to falando sério!”
“O que você quer que eu faça? Quer que eu obrigue o cara a falar?”
“Ah, deixa pra lá... Mas se ele te estuprar e a gente não tiver um plano, eu saio correndo e nem te ajudo!”
“Não duvido nada!”
Chegamos.
Apresentação dos cômodos.
“Esse é o quarto de vocês. Tem mais cobertores no armário, caso precisem.”
Uau! Ele falou!
Olhamos para o quarto. Legal. Mas, havia uma evidência que não ajudava muito a reputação do Sander: em tinta preta, ocupando a parede toda - “GOD SAYS NO”.
De repente veio a minha cabeça que eu estava em Den Haag, num frio do cacete, na casa de um cara o qual nem o sobrenome eu sabia, que morava numa rua cujo nome é impronunciável e que, no quarto de hóspedes mantém a parede rabiscada com tinta preta numa frase assustadoramente grande dizendo que Deus diz não. Deus diz “não”? Para o quê? “Para você cadela, toma isso!” (tiro – morte – enterro no jardim de Den Haag – corpos nunca mais encontrados).
Escrito por Srta. Sbaile às 23h54
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