E depois de tudo... Nem um cigarrinho? - parte II
Eu não me importo que você vote no Serra, ou que você adore o Bono porque ele é tããããooo dedicado às causas do terceiro mundo. Sinceramente, eu não me importo. E nem vou tentar te convencer do contrário.
Na maior parte do tempo eu não tenho paciência o suficiente para explicar minha visão política, bem como meus valores pessoais. A verdade é que quando você nasce em uma família de pessoas ricas e se encontra sem dinheiro para recarregar o bilhete único no final do mês, você automaticamente desenvolve um outro tipo de pensamento, e passa a se apegar a tudo aquilo que você sabe, porque não é mais possível se apegar a nada que você tenha.
E aí você finalmente acende um cigarro... E fuma! Você fuma e enche seu pulmão de... de seja lá o que tenha no cigarro! E você gosta, você adora fumar... E quando você pensa em parar de fumar, você fica indeciso, confuso e fuma de novo para aliviar toda essa tensão.
E além de votar no PT, além de achar o Bono um saco, eu fumo! E eu fumo pra caralho! Eu fumo pra cacete e eu não penso em parar! E depois do terceiro cigarro eu até consigo cantarolar “Sunday, bloody Sunday”... Não é maravilhoso?
Então vamos todos juntos, uni-vos, ó fumantes! Invadamos a área de fumantes aonde os vidros são delicadamente amarelos e... traguemos! Sim, traguemos e sintamos o prazer coletivo do maravilhoso gozo deste hábito tão discriminado! Depois saiamos e gritemos, sim, gritemos em bravos pulmões: “O Bono Vox é um pentelho!” e esperemos pelo dia em que os gritos inimigos de “Surrem, masmorrem, matem estes desertores fumantes e petistas!” ecoem pelas arestas de nossas persianas!
Claro que após ser escorraçada, dizimada, retalhada e ter recebido olhares tortos de todos os lados por aproximadamente oito pessoas não muito educadas... Eu saí pra fumar.
Minha avó, senhora Zeni Sbaile – pintora, pianista e mãe judia – tem pânico de cigarros, bem como pânico do PT e nem faz idéia de quem seja Bono Vox. Esta mulher saiu da mesa e foi respirar o ar puro do jardim. Realmente, uma pena que eu estivesse lá fumando e atrapalhando este ar tão... tão... tão... saudável de São Paulo!
Corri assim como o capeta corre da cruz. Saí pela porta lateral rindo da minha situação ridícula, afinal, quando eu tentei sair do armário e contar ao mundo sobre a minha relação com o cigarro, esta senhora de 81 anos teve um ataque histérico e disse que se ela morresse do coração, a culpa seria do meu cigarro! Não discuti. E assim como a dona de casa que nega até a morte as escapadas com o marido da dona do supermercado, prometi e dei a ela minha leal palavra de neta exemplar, dizendo que nunca mais fumaria.
Saindo pela porta, dois taxistas olhavam pra mim com uma cara de “É táxi ou a dona tá querendo informação?”
“Posso me sentar com vocês?”
“Claro.”
“Estou fugindo da minha avó”
“Como?”
“É, fugindo de uma velhinha de 81 anos.É que ela não pode saber que eu fumo.”
“Ah, sim.”
“É tudo uma grande comédia.”
“Como?”
“Vocês fumam?”
“Eu fumo às vezes, quase nunca.”
“Me acompanha?”
“E como eu poderia negar?”
Sorri. Traguei. E apoiei as costas na parede lateral com as pernas sob o banco. Quando voltei, tudo estava igual, eles ainda estavam sentados e o João educadamente sorriu e puxou a cadeira para que eu me sentasse novamente com eles, depois, passou a mão na minha cabeça assim... como se passa a mão na cabeça de um cachorro – o que foi adorável.
Escrito por Srta. Sbaile às 02h43
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