Vó, você tá grávida de novo? - parte II
Depois de Monet vieram muitos outros: Velásquez, Van Gogh, Dalí, Manet, Picasso... E no piano que ficava no canto da minha sala, aprendi as primeiras notas de Sonata ao Luar, assim como foi dela que ganhei meu primeiro livro de Teoria Musical.
Esperava ansiosamente que ela chegasse a São Paulo para que pudéssemos ir às livrarias. E com ela aprendi a assistir a Hitchcock e a gostar da Audrey Hepburn, em “Sabrina”.
Era ela e mais ninguém que me corrigia atenciosamente quando eu semitonava ao violino. E com a ajuda dela, consegui boas notas nas provas de História da escola.
É dela o quadro do Elvis que está na sala, e com ela eu escutava “Eleanor Rigby” sem parar durante as quentes madrugadas do interior de São Paulo.
São tantas as lembranças e são tão fortes as influências dessa mulher em mim, que tudo que eu gosto, tudo que eu pesquiso, cada filme, cada quadro, cada música, cada vez que me vejo feia no espelho e lembro dela dizendo que todas as mulheres são princesas... eu me enxergo, mais do que nunca, uma Sbaile, a III.
Tão chique, tão cheia de talentos, tão inteligente: a minha avó pintora, pianista, poetisa, dona de grandes sobrancelhas árabes e de um sotaque mais que perfeito em Francês, a mulher que costura, cozinha e conversa sobre Arqueologia com minha amiga professora da USP... Ainda me impressiona.
E cada lágrima que caía quando eu pensava na possibilidade de perdê-la era uma mistura de culpa por eu ter sido uma neta tão ausente nos últimos anos, egoísmo por não querê-la morta e fraqueza por pensar que, para mim, hoje, seria muito difícil continuar.
É que, na verdade, quando você olha de perto, não consegue ver. Tem que se afastar para enxergar. E se você prestar atenção, consegue até se ver, pequeno, no meio de um jardim de Monet.
E não vejo outra maneira de terminar esse texto, se não com as palavras que a Sra. Sbaile, a I, deixou no meu bloquinho de anotações quando eu tinha seis anos:
“A você, desejo o melhor para o dia de hoje,
Porque se você pensar um pouco sobre isso,
Ontem foi um hoje, e amanhã ainda será hoje.
E é nesse truque do tempo que o Homem inventou
Que ainda nos perdemos,
No passado do ontem, ou na esperança do amanhã.
O que às vezes nos esquecemos
È que todos os dias não passam de Hoje”
Escrito por Srta. Sbaile às 21h14
[]
[envie esta mensagem]
|