O retorno - parte IV

- Wagner, Vivaldi, Debussy, a trilha da novela “O Clone” e uma coletânea de anos 80.

 

- “O Clone”? Que brega você é!

 

- Muito, né?

 

- Vamos ouvir essa de anos 80! Me empresta um fone.

 

“This is the day” – The The.

 

- Putz, minha juventude está vindo à tona, Srta. Sbaile.

 

Trinta minutos depois:

 

- Nossa! Mudou para anos 50. Adoro Johnny Rivers!

 

- And it’s too late to say I’m sorry…

 

Quatro minutos depois:

 

- Oh yes, I’m the greeeeaaat preteeeendeeee-eee-eeer, preteeeeending that Iiiiii’m doing weeeee- eeellll…

 

Um minuto depois:

 

- E não é que já estamos nesse caos de São Paulo, Srta. Sbaile.

 

- É.

 

- Bom, foi muito bom conhecê-la. A Srta. tem um gosto musical sem igual.

 

Silêncio.

 

- Ah, foi bom te conhecer também. Espero que os mortos não te dêem muito trabalho aqui em Sampa.

 

- Malditos mortos! Tomara que todos eles morram um dia.

 

- Engraçadão você, hein Dr. James!

 

Desci com a mesma mala preta de sempre e a sensação de que não sabia nada sobre o Dr. James. Não sabia se ele tinha família ou filhos, de onde ele era ou quais eram os hobbies dele. Nós só tínhamos conversado trivialidades o tempo todo. Eu nunca mais veria o Dr. James, nem a Virgínia, no entanto, por cinco horas, foi comigo que estas pessoas interagiram e abriram seus sonhos, planos, gostos musicais e piadas.

 

Nessa hora, eu me orgulhei por ter me dado uma chance. Uma chance de conhecer alguém e passar horas falando sobre nada, ou sobre tudo. E, de repente, tudo fez mais sentido. A partir daquele momento, viajar deixou de ser um meio de chegar a um destino.

 

Eu me senti, pela primeira vez, uma colecionadora de histórias.



Escrito por Srta. Sbaile às 01h18
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O retorno - parte III

- Aí extraí o globo ocular do morto, já que ele ia de olhos fechados mesmo. O problema é que a pálpebra afundou, então tivemos que comprar uma bolinha de pingue-pongue e revesti-la com algodão e esparadrapo.

 

- Ficou bom?

 

- Não.

 

 Três horas depois:

 

- Não falei meu nome, né? Sou distraído mesmo. Sou o James, James...

 

- Bond?

 

- Quem mais extrairia um olho com uma tampa de caneta?

 

- O Marquês de Sade... Bom, eu sou C., C. Sbaile. Prazer.

 

- Todo meu, Srta. Sbaile.

 

Quando o Sr. James – ele tinha um sobrenome alemão, não me lembro mais agora – , me  ofereceu a mão dele para que eu pudesse cumprimentá-lo – depois de quatro horas de viagem – acabou derrubando minha bolsa sem querer. Dela saíram alguns trocados e umas moedas que eu nunca mais encontraria naquele ônibus escuro. Alguns CDs caíram  também:

 

- The Smiths? Você gosta de Smiths?

 

- Gosto.

 

- Esse Morrissey é mesmo uma bichona. Gosto dele!

 

- Adivinhe para que time o Morrissey torceria se fosse brasileiro?

 

- São Paulo?

 

- SÃO PAULO! Bibas do inferno! Aposto que o Sr. é Palmeirense!

 

- Da época em que éramos Palestra Itália!

 

- Aaaaaaaeeeeeh!

 

- Quando surge o alvo e verde imponenteeee...

 

- No gramado em que a luta o aguardaaaaaaa...

 

- Sabe bem o que vem pela frenteeee...

 

- Calem a boca, Palmeirenses! – algum corinthiano sem educação gritou do fundo do ônibus.

 

Só podia ser cotinthiano, afinal, todos nós sabemos que lugar de corinthiano é nos fundos.

 

- Corinthiano nojento. Aposto que fez supletivo.

 

- É, isso no caso dele ter dado sorte na vida, senão corremos o risco de estarmos viajando com uns nove quilos de cocaína que esse viado deve estar carregando até São Paulo. Mas me diga, o que mais você tem de CD aí?



Escrito por Srta. Sbaile às 01h17
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O retorno - parte II

- O Sr. é químico?

 

- Não, médico.

 

- Que tipo de médico?

 

- Legista. O tipo que vê morto.

 

- Esse tipo é legal! – mas não deve dar muita grana, já que ele morava em Jaboticabal e estava pegando um ônibus!

 

- O problema é que não tenho muito com quem conversar.

 

- Haha! Imagine. Chega um morto lá e o Sr. pergunta: “Nossa, você está horrível. O que aconteceu?”

 

- Já pensou se ele responde?

 

- Já aconteceu de algum responder?

 

- Já.

 

- Já?

 

- É, sim.

 

- E o que você fez?

 

- Enfiei a seringa de quetamina na aorta dele.

 

- Sério?

 

- Claro que não.

 

- Que droga! Seria demais se isso tivesse acontecido!

 

- Qual foi o morto mais bizarro que você já viu?

 

- Geralmente são os sem cabeça.

 

- Ainda usam guilhotina no canavial?

 

- Você nem imagina. Algumas pessoas são muito criativas ao matarem.

 

- Já aconteceu de vocês não encontrarem a cabeça e ele ser enterrado só com o corpo?

 

- Já. Mas aí usamos nossos artifícios legistas para reparar esse erro. Tipo colocar uma abóbora de Halloween no lugar e mandar escrever na lápide: “Jaz aqui este homem que morreu vivendo um conto de fadas”.

 

Eu gostei desse cara.

 

Uma hora e meia depois:

 

- ... e o olho dele saltou na minha mão devido a pressão periférica. Eu peguei uma tampa de caneta Bic e tentei enfiar, mas aquela porra tava inchada pra caralho. Pensei: fodeu, o cara vai sem olho pro caixão!

 

- Não acredito! E aí?

 



Escrito por Srta. Sbaile às 01h17
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O retorno - parte I

Feriado.

 

Oba! Hora de voltar a São Paulo, ver meu quarto, minhas amigas queridas, minha mãe, minha irmã, minha maconha!

 

Ônibus.

 

São Paulo! São Paulo! São Paulo!

 

Chupem, caipiras católicos de merda! Quatro dias em São Paulo! Yeah!

 

Chupe, maldita aula de violino!

 

Chupe, literatura luso-brasileira!

 

Chupe, exercício 5.9 de Biologia!

 

Chupem, todos vocês! Eu odeio o interior!!!

 

Ao meu lado, um homem quase velho.

 

Abri meu livro de Química, porque eu tinha prova na segunda de manhã. Tinha cinco horas no ônibus para estudar todos aqueles átomos babacas.

 

- É Química?

 

POR QUE AS PESSOAS INSISTEM EM FALAR COMIGO?

 

- É.

 

- Você gosta de Química?

 

- Não.

 

- Não?

 

- É. Não.

 

- Está em que série?

 

- Oitava.

 

- Camada de valência?

 

- É.

 

- Você não gosta de falar?

 

- Não.

 

- Tudo bem.

 

Silêncio.

 

Li o capítulo e fui fazer o primeiro exercício.

 

- Você não pode tirar esse átomo daí, isso é um composto covalente!

 

Não, ele não ia me deixar em paz.



Escrito por Srta. Sbaile às 01h15
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