Quando tudo na vida faz sentido - Grand Finale

Preferi não comentar, nem conversar mais. O cara era tão esteta que hoje, provavelmente, ele é gay, estilista e está trabalhando com a Virgínia. Dizendo “Divaaaaa escultural” em bravos pulmões para as modelos da agência.

 

Gay ou não, ele perdeu a chance dele, porque a Virgínia, além de muito simpática e bonita, é, hoje, modelo internacional e foi capa da Trip. Enquanto ele, muito provavelmente, vai se casar com a Miss Canavial, ter filhos caipiras, família caipira e emprego caipira. Aí, a mulher dele vai engordar, e ele vai traí-la com a caixa do supermercado que, por sinal, é bem meia boca, meio gordinha, com pernas finas e unhas dos pés pintadas com esmalte escuro – mas não, ele não se importará mais com isso, acreditem!

 

Um último comentário antes de descer do ônibus. Comentário meu, por sinal:

 

- Sabe de uma coisa?

 

- Sim?

 

- Você se parece com o Christian Fitipaldi.

 

- Ah, todo mundo me fala isso.

 

Desci.



Escrito por Srta. Sbaile às 19h09
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Quando tudo na vida faz sentido - parte III

- É, que bom pra você. Digo, que ela malhe.

 

- Nem me fale.

 

“Dr. James! Dr. James! Cadê você nessas horas difíceis?”

 

Eu não estava acreditando que aquele cara pudesse ser tão absurdamente idiota. Então tentei contornar a conversa:

 

- Bebedouro... Eu já viajei com uma menina de Bebedouro.

 

- A cidade é tão pequena que talvez eu conheça. Lembra o nome?

 

- Virgínia. Virgínia Z.

 

- Ah, você pegou um ônibus com a Virgínia, huh?

 

- Foi o que acabei de falar. Conhece?

 

- Ah... A Virgínia... É...

 

- Isso é um sim, suponho.

 

- Fiquei com ela uma vez.

 

Uh! Catador do matagal!

 

- Que mundo pequeno!

 

- Pra você ver...

 

- Ela... É linda.

 

- É.

 

Ele ficou quieto.

 

- Não deu certo por quê?

 

- O quê?

 

- Você e a Virgínia...

 

- Ah! Eu não estava muito interessado naquela época.

 

- Hoje você está?

 

- Também não, mas hoje ela está linda. Há um ano atrás, acredite, ela era bem gorda!



Escrito por Srta. Sbaile às 19h08
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Quando tudo na vida faz sentido - parte II

Uma hora depois.



- Nossa! Onde estamos? – ele perguntou.



- Quase em Jaboticabal. – eu respondi.



- Espero que eu não tenha roncado na sua orelha durante essas quatro horas.



- Não, não roncou. Quer chiclete?



- Ah, sim. Obrigado.



- De nada. Indo pra onde? – Como é bom pensar que você é criativo às vezes... Ai, ai.



- Bebedouro. E você?



- Jaboticabal. O que estava fazendo em São Paulo?



- Fui visitar uma antiga paixão. – Bicho, falar “antiga paixão” é muito brega.



- Uma antiga paixão, huh?



- É, você sabe...



- É, entendo.



Ele sorriu como se eu não estivesse ao lado dele, e num suspiro de quem fez muito sexo durante o feriado, soltou:



- Foi ótimo.



Na boa, que filho da puta!



- Ah, que sorte a sua, hein?



- Olha, tenho umas fotos dela!



Como se eu estivesse interessada.



- Linda. Parabéns.



- Ela malha. Gosto de mulheres que malham.



“E eu gosto de homens que se vestem de elefantinho da Parmalat e gritam: ‘Me domine, ó fera voraz!’ enquanto mexem a trombinha.”



Tipo, esse comentário dele foi mais broxante que meu pensamento em off. Sério mesmo!




Escrito por Srta. Sbaile às 19h05
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Quando tudo na vida faz sentido

Ah, que triste era ter que voltar àquela vida idiota de interior.

 

Terminal Tietê.

 

E eu me perguntando quem seria o próximo personagem da saga. O infeliz que viajaria ao meu lado.

 

O ônibus chegou e eu fiquei lá, olhando as pessoas, imaginando qual delas seria. Comprei uma coca-cola e esperei que todos entrassem, fui a última. Detesto filas, principalmente quando é pra entrar num ônibus que vai até Barretos com uma parada estratégica nela: a maravilhosa Jaboticabal.

 

Ao meu lado, um cara bem bonito.

 

Aos treze anos eu não tinha esse tipo de pensamento com freqüência. Achava que todos os homens eram bestas. Ainda acho. Mas agora sou adulta... E heterossexual.

 

- Oi. – falei sorrindo.

 

- Oi – ele respondeu sem sorrir.

 

Caipira, basicamente.

 

“Seria legal se ele falasse comigo. Tenho me sentido um pouco sozinha, ser xavecada não seria ruim, mas sei lá... acho que ele não está afim.”

 

“Tento puxar papo? Hmmm... Melhor não.”

 

“Talvez, ele só seja tímido. Se eu puxar papo, de repente... sei lá... Ah, Sbaile, idiota, ele nunca xavecaria você!”

 

“Como não? Eu sou uma diva!”

 

Quarenta minutos depois.

 

“Mas... Se eu for falar com ele, como devo começar? O típico ‘Indo pra onde?’”

 

“Não! Isso é coisa de gente sem criatividade, e eu tenho uma criatividade absurda, tenho que mostrar isso.”

 

Duas horas e meia depois:

 

“Faço algum comentário sobre política?”

 

“Droga... Ele dormiu.”



Escrito por Srta. Sbaile às 19h05
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